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3 Contos: “UMA PROFUNDIDADE PARA O BOM DIA” e “Quase” e “O arroz da minha Tia”

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    portalbuglatino
  • há 6 dias
  • 6 min de leitura

Maria Barreira
Maria Barreira

Conto “UMA PROFUNDIDADE PARA O BOM DIA”

Depois que meu primo foi embora, os dias continuaram leves, mas com um tiquinho de tristeza. Num dado momento percebi com clareza que os meus, os nossos problemas - meus e dela, a querida – não tinham conseguido roubar de mim essa leveza. Ao contrário: a idade nos fazia cada vez mais faladeiras, descendo as ladeiras da cidade e resolvendo problemas, entendendo traumas passados, colocando nossas vidas em palavras.

Cada pessoa que cruza conosco na rua e recebe – muitas vezes em uníssono – o mesmo bom dia bem humorado de todos os dias, amadurece o momento em que vai passar de um cumprimento cordial para a conversa e, quem sabe, a confidência sobre aquele mal estar, o problema de saúde, a política, o futebol, a crítica.

Assim, de grão em grão, vamos sendo, vamos virando ouvidos sociais cordiais, falando palavras cordiais, que habitam seres cordiais. É problemático? Sim, muitas vezes. De alguma forma, o verniz social está cada vez mais recrudescido (eu achava) e, mesmo sufocando em rotinas interminavelmente exigentes, nós víamos as pessoas olharem a simplicidade dos passarinhos com desdém, sem nunca pensarem que podem usar a mesma simplicidade observando a vida das pessoas, que sorriem, dizem graças à Deus, nos pedem a benção e desejam que Deus nos abençoe, numa tradição que Salvador guarda e que acalenta corações de fora – como o do meu primo – que aqui sorriu mil vezes, acenou mil vezes.

Essa vida que ninguém presta atenção suficiente, é o que constrói e dá a medida da passagem do tempo. Hoje um senhor ainda no timing do “bom dia” apenas, resolveu se abrir. Um instante, um cumprimento e pudemos contribuir com sua saúde, aprender com o relato de sua doença e entendermos sua recuperação. Nenhum médico saberia tanto, em tão pouco tempo. Mas a confiança nascida dos bons dias, nos carrega sempre para a descoberta, a intimidade e a convivência.

E todos os dias são assim. A outra gravação - essa do amigo adoecido - veio por WhatsApp, outras por escrito. Assim, o tempo nos conduz não à loucura de afirmar com convicção frases incongruentes como “minha larga experiencia de três anos” – tantas vezes dita na internet – mas tantas outras coisas honestamente ditas. Profundamente sentidas.

Não sei se todos os nossos caminhos são acertados, mas sei que eles nos levam a confortar pessoas, a rir com elas, a ouvi-las falar de sua impaciência com o sistema de ensino, suas buscas, angústias e tristezas. Talvez não tenhamos respostas para todas, mas temos a capacidade de ouvi-las. E isso me faz mais feliz.

Sei que meu primo terá saudades, mas a porta de criar um caminho para construir uma rotina de delicadezas também pode ser aberta. Em qualquer lugar que exista e tenha pessoas.

Ok. Entre sorrisos também admitimos algumas respostas anti-terraplanistas. Mas isso é assunto para outras histórias. Hoje ficamos só na ternura.

Ana Ribeiro, diretora de cinema, teatro e TV

 

Conto “Quase”

Um abraço.

Tenho um abraço que guardo, pendurado no tempo. Foi a nossa despedida física, presencial, como se diz agora. É quase igual.

Tudo o que mudei em mim, desde que foste, é muito e ao mesmo tempo pareço igual. Quase igual.

Não sei porque amadureci tanto depois de ires embora. Talvez seja porque nunca acreditamos que as pessoas realmente vão embora. E realmente, elas vão mesmo embora.

Depois da pandemia aprendi o conceito presencial ou online. Penso em ti constantemente e imagino que é uma espécie de situação em que deixamos de ter presencial e agora só nos resta o formato online. É quase.

Também aprendi que te mantenho viva, pensando em ti, falando de ti, continuando a aprender contigo, fazendo as coisas que gostávamos de fazer juntas, tentando fazer as coisas que fazias tão bem. Não é a mesma coisa, nunca será. Mas é quase.

Disseste para eu virar naquele cruzamento, mas eu nunca mais o vi - o cruzamento. Tirar dúvidas também já não dá. O formato online não permite. Onde viro então? Será que isso quer dizer que estou mesmo por minha conta? O que eu tanto queria quando era jovem? Agora não tem grande piada.

Eu estou a chegar aos 60 anos mas por dentro continuo uma menina. Tudo dizias isso de ti e eu sorria. Sorria e realmente não acreditava. Achava que era uma forma tua de falar da vida, de dizer que mesmo envelhecendo a pessoa se sente jovem. Mas tinhas razão, envelhecemos por fora, apenas por fora. Por dentro permanecemos. Quase intactas. Quase.

Aquele prato de bacalhau fica quase igual. Quase. Como todo o resto. Tudo está quase igual. Quase. E eu queria poder te dizer que, como sempre fiz, vou resolver tudo. Mas eu também estou quase como antes. Quase.

Sinto saudades das manhãs de domingo que de vez em quando tínhamos sozinhas. Eram especiais. Eu te falei que podias perguntar o que quisesses sobre a minha vida, sobre as minhas escolhas, minhas decisões, tudo o que quisesses.  E tu perguntaste. Durante anos, perguntaste de tudo e isso me deixou muito feliz. Eu disse-te tudo o que sabia de mim e respondi a tudo com verdade. Aí não foi quase, foi mesmo tudo. Tu ias ficando calma, segura. Só aceitamos o que compreendemos e eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para compreenderes. Compreendeste. Até ríamos por vezes. De domingos tensos em que uma pergunta demorava a manhã inteira para momentos de muita conversa, chegando até a ter momentos hilariantes. Isso nos uniu. Esse segredo nos uniu. Faria de novo. Isso nos protegeu muito em relação aos preconceitos alheios, avaliações externas, dedos apontados, censuras. Me protegeu mais do que a ti, bem sei, mas mesmo assim foi uma forma que encontrei de saberes mais do que todos. E sabes. Sempre saberás.  

Como se segue em frente de cabeça erguida, todos os dias? Todos os dias? Como se substitui uma “cola” que deixou de se fabricar?

Dizem, tentando. Tentando e fazendo. É perigoso ficar tentando no pensamento porque o tempo passa, nada acontece e os pés parecem ficar um pouco enterrados numa areia imaginária. Movediça imaginária. Traiçoeira. Malévola. Não, não, não lhe dou confiança nenhuma. Quando nada me ajuda, cozinhar é uma janela. Tem sempre janelas, tens razão. As janelas que tu me apontavas quando o mundo me derrubava e ficava tão escuro...

“Nunca esqueças a frase, quando uma porta se fecha, aparece sempre uma janela”- lembravas.

Às vezes, vejo as janelas com facilidade. Outras vezes está muito escuro.

Mas estou quase lá. Quase.

Ana Santos, professora, jornalista

 

Conto “O arroz da minha Tia”

A casa estava perfumada de memórias. Em cada quarto, em cada sabonete escondido no fundo de uma gaveta, na velha arca de pau-santo do Brasil onde repousavam toalhas e lençóis. Cada objecto testemunha de uma história adormecida, presentes esquecidos mas silenciosamente guardados. O barulhinho da porta batendo de leve avisando visita. A janela rangendo baixinho anunciando a noite fria, depois do calor da tarde batendo nas paredes brancas.

 

Já de noite, a cebola picada rendia-se lentamente ao lume, entregando-se sem resistência ao seu destino. Minha Tia, distraída entre o jogo da conversa e o cuidado dos seus cães, esquecia-se do tempo. Remexia mais em quando do que em vez, a cebola cor de caramelo, no tacho marcado pelos anos, cúmplice desse doce descuido. O arroz, paciente, aguardava a sua vez de entrar naquele delicado corridinho algarvio em torno da colher de pau.

 

Minha tia era a mestra discreta do refogado queimado. Por um meigo esquecimento repetido que se tornou hábito. Nunca por pressa, mas pelo ritmo sereno da sua vida sem urgências, que ela escolheu abraçar. Nunca se gabou de talentos culinários. Remexia a colher de pau com uma calma singular, deixando que o aroma intenso da cebola já dourada se espalhasse pela casa, penetrando cada frincha, atravessando portas fechadas, perfumando suavemente todos os quartos, anunciando de mansinho que a hora do jantar se aproximava.

 

Hoje, tive saudades dela. Como em tantos outros dias. Da sua voz doce, das suas histórias inocentes, do seu sorriso meigo mais acolhedor do que um abraço. Senti falta do ballet das suas mãos, dançando com as agulhas de tricot. Fiz o arroz como ela o faria, sem avental, sem pressa. Com a leveza de aceitar que mesmo não ficando perfeito, o mundo não deixará de girar, os cães continuarão brincando alegres e pedindo mimos, e o velho rádio continuará passando a sua emissão preferida na tarde tranquila que virá amanhã.

 

A cebola ficou escura, o fundo do tacho gravado de sabor e memórias. Sentei-me à mesa. Na primeira garfada, ela estava ali comigo conversando, enquanto me olhava carinhosamente com os olhos azuis que combinam com o céu onde hoje mora.

 

De pequenas imperfeições vivem as mais belas saudades. De imperfeições de momentos perfeitos.

 

Oiro Marbec

Convidado

 
 
 

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